Trauma ocular Infância

Por Dra. Luciana Peixoto Finamor

Era Uma Vez um pequeno acidente que…

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), ocorrem, por ano, cerca de 55 milhões de traumatismos oculares que restringem as atividades por pelo menos um dia do indivíduo afetado; dentre estes, 750.000 necessitam de hospitalização; cerca de 200.000 são traumatismos abertos do globo ocular. No mundo, por lesões traumáticas do globo ocular, há em torno de 1,6 milhões de cegos, 2.3 milhões de indivíduos com baixa acuidade visual bilateral e 19 milhões com cegueira ou visão baixa unilateral. As lesões do globo ocular na infância correspondem a considerável parcela dos casos de cegueira infantil no Brasil e refletem a grande exposição da criança ao trauma. São mais frequentes em meninos, provavelmente pelas atividades de maior “agressividade” e força apresentada durante as brincadeiras.

Muitas vezes, os traumas oculares acontecem mesmo dentro de casa ou na escola, durante atividades esportivas. Em estudo realizado na UNIFESP-EPM, com indivíduos que sofreram acidente ocular no esporte, a idade média encontrada foi de 22,4 anos e a maioria era mesmo do sexo masculino (Martins EM, Alvarenga LS, Rego PR, Bueno NS, Freitas D. Trauma ocular e esportes. Arq Bras Oftalmol).  A perda do globo ocular na infância é um problema de saúde pública. A incapacidade temporária ou mesmo permanente do olho acometido pode acarretar uma série de repercussões sociais e econômicas que poderiam ser passíveis de prevenção pelo atendimento adequado e educação preventiva.

Deve-se levar em consideração o agente causal intradomiciliar que mais comumente resulta em acidentes oculares infantis. Estudos brasileiros concordam que objetos pontiagudos como facas, garfos e tesouras são responsáveis por mais de 50% dos ferimentos oculares penetrantes. Esse dado reforça a necessidade de se atentar para um ambiente doméstico arquitetado de modo a manter longe do alcance das crianças esses utensílios, além de substâncias químicas – a segunda maior causa de acidentes intradomiciliares. A maior parte dos acidentes (50%) ocorre com crianças de 0-5 anos.  Assim, acreditamos que crianças menores de cinco anos são um grupo de risco significativo para traumas oculares, necessitando, assim, de assistência integral por parte dos pais ou responsáveis. Brincadeiras sem supervisão (entre amigos e com animais) ou permitir que uma criança corra com um pirulito na mão pode ser causa de uma grave lesão. Vale ainda lembrar de acidentes com estilhaços de vidro, queimaduras oculares ao se assoprar velas durante comemorações e queimaduras químicas por manipulação de produtos de limpeza e cosméticos. Em caso de acidentes domésticos, o importante é em primeiro lugar manter a calma! Na maioria dos casos, os sintomas iniciais causam muito desconforto, mas não têm muita gravidade. Se algo entrou dentro do olho, lave de imediato com água corrente fria e procure um atendimento especializado.

Em caso de algumas atividades esportivas de maior risco, e nas pessoas que já fazem uso de óculos, recomenda-se o uso de lentes de maior resistência e com menor risco de quebra.  As principais lentes com alta resistência são feitas de policarbonato e trivex. Estudos mostram que no Brasil o futebol é o esporte de maior risco, tanto que jogadores famosos como o Tostão tiveram descolamento de retina durante um jogo de futebol. Um ano antes da Copa de 70, o Brasil jogava um amistoso contra a Colômbia. Tostão, já reconhecido como um dos maiores craques do mundo, sofreu um encontrão com o zagueiro Castaños e acabou machucando o olho esquerdo. Para piorar, um mês depois, no jogo entre Cruzeiro e Corinthians, o zagueiro Ditão acertou uma forte bolada no olho esquerdo de Tostão. O choque acabou deslocando a retina do meia cruzeirense. Em fevereiro de 73, após amistoso do clube contra a Argentina, Tostão deu uma triste notícia a todos: com apenas 26 anos, estava encerrando a sua carreira, pois de acordo com os médicos, ele corria risco de ficar cego.

“Um médico recomendou que eu não jogasse mais porque havia o risco de eu levar outra bolada e ter mais problemas no olho. Isso aí já era o bastante para eu parar de jogar. Eu não tinha opção, não poderia ir contra o médico. Claro que ele falou: “O risco é seu.” Esse é o ponto principal. Tive lesão no olho, e, para a gente ter a visão de profundidade, a gente precisa ter a conjunção dos dois olhos. Então, numa bola lançada com muita velocidade, eu teria grande dificuldade de dominá-la porque a minha visão central do olho que foi operado estava bastante prejudicada. Então, se eu quisesse jogar, eu não teria condições de jogar como eu jogava antes. Então foram duas coisas que me fizeram parar de jogar: isso foi recomendado, e se eu continuasse jogando não teria as mesmas condições . Isso foi determinante para encerrar a carreira aos 26 anos, precocemente. Fiquei chateado. Mas ao mesmo tempo, pelo fato de eu ter apenas 26 anos e ter feito curso científico, eu já podia fazer vestibular. Fiz vestibular e entrei para a faculdade de medicina.” Fonte: http://globoesporte.globo.com/mg/futebol/noticia/os-70-anos-de-tostao-fui-grande-jogador-mas-num-segundo-ou-terceiro-escalao.ghtml

As armações dos óculos esportivos devem fornecer campo de visão amplo, alta resistência a impactos, ser de material leve e não apresentar pontos de fragilidade. Existem armações e lentes específicas para cada modalidade, sendo que todas devem ser confeccionadas dentro de normas adequadas de fabricação, para evitar que o atleta se machuque ou, no caso de um esporte em equipe, machuque um adversário. A responsabilidade na prevenção de traumas oculares na prática esportiva é ampla, inclui o atleta, o treinador, o fabricante de material esportivo, o oftalmologista (nos casos de trauma ocular) e o médico do esporte.

Projetos educacionais preventivos, abrangendo os ambientes doméstico, profissional, médicos, atletas, entidades organizadoras das regras dos esportes e fabricantes de materiais esportivos, poderiam reduzir a incidência dos traumatismos oculares nos esportes e domiciliares. Mas cabe à nós, pais e responsáveis, ficarmos atentos e explicar aos nossos filhos sobre os riscos de pequenos acidentes! A Prevenção é sempre o melhor remédio!

Dra. Luciana Peixoto Finamor, é médica oftalmologista e mãe do Matheus, Giovanna e Isabella. Esses dias socorreu o Thomaz, que se acidentou no futebol. O Matheus ama futebol e também conheceu o Thomaz. O Matheus e o Thomaz agora sabem que precisam tomar mais cuidado durante o futebol! O Thomaz está bem! E eles agora conhecem a história do Tostão…

Dra. Luciana Peixoto Finamor

Clínica de Olhos Dr. Moacir Cunha – 3016-9900

Setor de Pesquisa Clínica UNIFESP

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