DEPRESSÃO MATERNA

Por  Raisa Pinheiro Arruda 

Quando nasce um bebê, retornam à mãe (e ao pai) milhares de sentimentos infantis, e memórias da própria infância, e essas memórias vão aliviar ou prender os novos pais em um medo da criança. O bebê é uma pessoinha que pode trazer muita insegurança e medo, e algumas mulheres, no momento do puerpério ou depois, não sabem o que fazer.
Para algumas esse estado pode iniciar na gravidez, quando não foi possível lidar com as mudanças do corpo, as restrições, e o novo papel que a mulher terá de assumir. Para outras, surge quando ela se depara com a realidade que é ser mãe, no momento em que o bebê nasce ou quando essa realidade se apresenta nas imprevisibilidades da vida, que a maternidade nos coloca à prova, todo o momento. Em qualquer dessas situações, algo que não foi bem elaborado ou recalcado na infância, e encontrou com o nascimento do bebê uma via de escape, para retornar em forma de sintoma – que pode ser em comportamento ou físico, ou ambos.
Temos algumas nomenclaturas que facilitam o diagnóstico, mas vale lembrar que o diagnóstico é muito mais amplo e complexo do que as nomenclaturas, e que qualquer sofrimento deve ser levado em consideração, principalmente se ele dificulta as relações, e paralisa a vida.
A depressão é uma tristeza profunda que acomete homens e mulheres. Quando em algum momento da vida há um encontro com algo que remete à uma memória afetiva que não foi recalcada ou transformada/ desviada por outro viés, saudável; essa memória quando retorna não retorna como ela própria, não é como se você se lembrasse do fato ou do sentimento tal qual, o que acontece é que ela retorna disfarçada, sabe aquela angústia que aparece “do nada”? Essa angústia é uma proteção para que você não tenha contato direto com a memória que foi despertada, e para alguns a angústia é forte demais, e junto dela vem outros sintomas, como a tristeza, o medo, a paralisia diante da vida, etc.
No caso em questão, chamamos de depressão materna quando a depressão é desencadeada por conta da maternidade, quando são fatos da realidade materna que desperta esses sintomas, que são associados ao medo de não saber cuidar do bebê, sentimento de impotência, incapacidade, estranhamento da situação (não se reconhecer em quanto mãe, não reconhecer o bebê como filho, não compreender a realidade frágil do bebê, etc.), os sintomas podem ser vários, pois cada mulher vai demonstrar sintomas de acordo com a sua realidade psíquica.
Então, na depressão materna existem algumas divisões: a primeira divisão é o baby blues, que é uma tristeza profunda, que marca o primeiro momento da mãe com o bebê, exatamente o momento em que ela se depara com o bebê real e não o fantasiado, se depara com a “falta de glamour” do puerpério (o cansaço, a dificuldade para dormir, a fome, a dificuldade de amamentar nos primeiros momentos, as famosas “cólicas”, o choro incontrolável do bebê, a falta de tempo para tomar banho, etc.), o baby blues é passageiro, acontece nesse momento de adaptação e reconhecimento, da quebra da fantasia e da reconstrução da mulher com sua nova situação. Bom, pelo menos deveria ser passageiro, mas quando ele dura mais do que um mês, pode ser que a mulher esteja passando por uma depressão puerperal, que é uma tristeza profunda, permeada de sentimentos de incapacidade e culpa, algumas mulheres sentem-se exauridas, tendem a caracterizar o bebê como um parasita, sanguessuga da sua vida, e isso as incomoda profundamente, a ponto de negar o bebê, ou se negar ao bebê, ou pensamentos recorrentes e freqüentes de que vai machucar seu filho, ou de imaginar a morte do seu bebê diversas vezes, enquanto cuidada dele… Lembra aquela história do resguardo quebrado, que nossas avós falam que é perigoso a mulher “ficar louca” ou ter alguma doença pra sempre? Bom, o resguardo compreende o tempo do puerpério, e quando elas dizem que a mulher deve descansar, dormir quando o bebê dorme, que a família toda deve ficar de prontidão pra ajudar a mãe, que ela não pode fazer esforço, enfim, todas as diretrizes que nossas avós dão sobre o pós-parto, que muita gente diz que hoje o tempo é outro e isso é besteira, não é. Nesse momento do resguardo é imprescindível que a mulher tenha apoio, descanso, que possa viver esse binômio mãe-bebê com tranquilidade, e muito suporte e ajuda. Falar com outras pessoas sobre isso é muito importante, pois ao falar a respeito, a mulher vai se livrando da carga pesada que é o sofrimento, e a culpa por estar sofrendo. Caso você perceba que a maternidade está sendo um fardo, que você não consegue se relacionar com seu bebê, que tem dificuldade de aceitar que ele chore, ou dificuldade de viver esse binômio mãe-bebê, procurar ajuda é primordial. A depressão materna pode aparecer noutros momentos da vida da mulher, após ela ter se tornado mãe, ou poder perdurar por muito tempo, caso não seja percebido ou a mulher tenha medo (ou vergonha) de pedir ajuda.
babyblue
O baby blues acomete 50% das mulheres, e a depressão pós parto, no Brasil, chega à 36%. É um número bastante alto, o que mostra a necessidade de se repensar a maternidade, o apoio social para a mulher que deseja ser mãe, e também apoio para que não deseja ter filhos e o tem por imposição social. O fato de a mulher não desejar ser mãe, e o ser, também pode ser um fator que desencadea a depressão pós-parto, pela falta de identificação e desejo. Repensar a licença maternidade E a licença paternidade, repensar a carga horária do brasileiro, pois a culpa dos pais também pesa no quadro de depressão, repensar as relações de trabalho, pois tudo isso é fator que agrava, muitas vezes sendo também a causa. E 0,2% das mulheres podem apresentar o caso de psicose materna, que é caracterizado por fantasias, e que as mulheres acreditam que a fantasia é real, e põe em risco a própria vida e a vida da criança. O infanticídio, muitas vezes, acontece quando a mãe apresenta um estado de psicose e não é ouvida, ou cuidada, e pode chegar a machucar seu filho, ou a si própria.
Caso você perceba que vive esses sintomas, ou você conhece alguma mulher que está passando por isso, não hesite em buscar ajuda! Muitas vezes as mulheres tem vergonha de buscar ajuda, pois tem medo de ser rechaçada, já que existe um mito sobre a maternidade que sofrer por ser mãe é proibido, é tabu, como se esse sofrimento fosse pelo filho, mas na verdade é a mãe por ela mesma, a depressão é desencadeada pela maternidade, mas não significa falta de amor ao filho. Não julgar, mas acolher, ouvir e apoiar a mulher nesse momento é muito importante. O amor é construído. A construção desse amor materno se dá pela história de vida, pela maneira como a mãe viveu suas experiências de afeto e desafeto! Só podemos dar aquilo que possuímos, e se não tivemos oportunidade de tê-los, que possamos construir e encontrar dentro de si o que falta de afeto, para ser possível dar.

*Texto originalmente publicado em 08/02/2015

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Raisa Arruda
Psicóloga Clinica/Assessoria em Psicologia Escolar
CRP 11/07646
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