Consumismo Infantil: O que é? Como Evitá-lo?

Por Dra. Franciane Nascimento

Quem nunca, diante do pedido de um filho ou sobrinho em um shopping, não cedeu só para vê-lo com rostinho feliz naquele momento?

Quem nunca, em meio a dificuldades financeiras, não se esforçou para comprar o tão sonhado presente  desejado de aniversário ou natal a seu filho?

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Onde mora o problema diante de tudo isso? Muito provavelmente esteja morando na sala, no quarto ou em outros cômodos da casa.

A televisão vem ocupando um lugar de destaque entre as formas disponíveis de entretenimento, no entanto, a proporção com que isso ocorre é cada vez mais alarmante. Estudos realizados pelo Painel Nacional de Televisão do Ibope, revelaram que crianças brasileiras,  passam aproximadamente, cinco horas por dia em frente à televisão, com esse resultado, o Brasil passou a ser o recordista mundial, em horas/dia que as crianças assistem  televisão, passando a frente até mesmo dos Estados Unidos.

Um dos grandes problemas debatidos no âmbito educacional e psicológico, é como evitar as possíveis influências negativas vindas dos conteúdos televisivos. De uma forma mais preocupante, as mensagens publicitárias voltadas ao público infantil, uma vez que esse tipo de publicidade tende a persuadir às crianças a adquirir  produtos, ignorando a ética educacional,  e atingindo o objetivo de  que esses produtos sejam consumidos a todo custo.

Pensando na estrutura familiar  dos dias atuais, é provável que muitas crianças tenham mais a companhia da televisão do que dos pais.  Uma vez que acabam  tendo, na maioria da vezes, apenas o período da noite, quando regressam do trabalho, o contato com os filhos. Essa ausência de companhia, seja materna ou paterna ao assistir televisão, pode gerar influências negativas, uma vez que faltando um mediador que tenha o papel de ensinar a criança a respeito a formação de opinião,  estas acabam ficando  suscetíveis à aquilo que lhe é mostrado, dando margem a ser tornarem cada vez mais consumistas.

Pesquisas tem apontado que a televisão vem interferindo até mesmo na alimentação das crianças.  Dados de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, mostraram que para cada dez minutos de publicidade veiculada nos intervalos de propagandas infantis da televisão brasileira, um minuto é destinado a produtos alimentícios que geram hábitos poucos saudáveis nas crianças . Segundo pesquisas da Organização Mundial de Saúde, somente 30 segundos de publicidades são necessários para exercer influência sobre as crianças nesse sentido.

As crianças aprendem assistindo as propagandas, logo as mesmas, tem o poder muitas vezes, de ensinar valores e gostos a esses pequenos . Um exemplo a ser citado seria de  uma velha propaganda de tesouras do Mickey, na qual a criança dizia “ eu tenho você não tem”.. que tipo de mensagem, anexa essa propaganda, passava às crianças? Eu tenho algo que você não tem, ou seja, ter é poder, a criança passa a querer determinado objeto de forma a ter aquela qualidade, ela passa a ter a idéia que adquirindo aquilo será mais feliz, terá super poderes e aí mora o perigo de tudo isso, pois a criança, diferentemente do adulto são privadas de senso crítico, o que não permite que sejam capazes de compreender a persuasão contida intrínseca nas mensagens, e se tornam foco de publicitários e iscas fáceis ao consumo.

Pesquisa realizadas pela Intersence (2003), apontam que 80% das compras de uma casa, são decididas pelas crianças.

As crianças acompanham seus pais ao local de compra a partir de um mês de idade, e elas começam  a fazer compra de forma independente a partir de 4 anos, passando por 5 estágios:

1) Observando e interagindo no local de compra;

2) fazendo pedidos;

3) selecionando produtos e serviços;

4) efetuando compras com algum tipo de ajuda ( dos pais ou de qualquer um que seja; e por fim,

 5) efetuando compras sozinhas.

Muitos pais na tentativa de sanar sua ausências diárias, acabam por atender os pedidos  dos filhos  diante das compras, e os publicitários já entenderam isso. Podemos entender que a publicidade migrou da informação, para percepção sedutiva, considerando que as crianças são fatores determinantes, tornando o público infantil, uma presa fácil para os disseminadores da cultura do consumo.

O ser humano tem grande necessidade de aceitação, de pertencimento a um grupo, e o ato de consumir, passa a ser nesses casos, uma forma de inserção social, ou seja para viver este sentimento de pertença,  a criança “começa a acreditar que necessita adquirir determinado brinquedo, certas marcas de tênis e roupas, comer determinadas coisas e até fazer passeios interessantes para o seu grupo.

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O que isso pode gerar nas crianças em termos psicológicos?

  • Transtornos de comportamentos: Uma vez que algumas propagandas estão atreladas ao estímulo a desumanização e individualismo.
  • Violência: Algumas propagadas utilizam de violência para promover seus produtos/serviços , atrelando conteúdos que a violência pode ser divertida, ou até mesmo é uma forma eficaz de resolver conflitos.
  • Transtornos alimentares: existem diversas evidências e pesquisas dizendo que diversos transtornos  alimentares como obesidade, possuem relação  direta com campanhas publicitárias.
  • Stress familiar: Muitas propagandas passam a idéia de famílias super perfeitas, em algumas vezes a publicidade também tenta desmoralizar os pais como agentes de autoridade e decisão, além de conflitos na hora das compras.
  • Influência a vícios: Há algum tempo, uma marca de cerveja, utilizava um mascote com atitudes humanas, tal como um siri, que na praia roubava a bebida de uma rapaz distraído, e num gesto de provocação rebolava para ele, durante muito tempo foi muito comum vermos  crianças imitando esses animais que protagonizavam os comerciais dessa cerveja, fidelizando os pequenos  a assistirem essas propagandas, quais as mensagem transmitidas as crianças numa tenra idade?  Tal cerveja é a número 1, ou desenvolver precocemente uma relação afetiva com bebidas alcoólicas, a fim de que essas possam se tornarem futuros consumidores?
  • Criminalidade: Pesquisas apontam que por volta dos 13 anos, às crianças de periferia vão buscar o que lhes foi negado em termos de consumo, logo o consumismo se torna fator de risco á sociedade.

Analisando, tudo isso, é claro que não podemos responsabilizar somente os publicitários pela educação, formação e conscientização das crianças, este papel cabe fundamentalmente aos pais e ao Estado, porém esses profissionais precisam desenvolver noções de ética da comunicação e aplica-las em seus trabalhos, aliando as lógicas de mercado. Será ético instigar uma criança dizer “eu tenho, você não tem”? Será ético instigarem as crianças a utilizarem recursos verbais para convencer seus pais a comprar produtos?

Como ajudar seu filho a não se tornar um consumista?

O melhor exercício de educação para o consumo é consumir com responsabilidade junto com os filhos. Quando pai e filho se dirigirem ao mercado, por exemplo, mostrar o quanto se paga num produto, de onde vem e como é feito, entre outros fatores, são boas formas de ensinar o valor do produto adquirido.

Ter tempo com as crianças é fator fundamental, ensina -se valores nas situações cotidianas.

Desconstrua a cultura do ter, programe passeios em meios de menor gasto, como parques e ressalte a importância disso, a fim de que a criança estabeleça relações de afetividade com os lugares e não com aquilo que possam comprar nesses locais.

Desconstrua a idéia, presente igual a amor, declare ao seu filho o quanto o ama e o quanto ele é importante, mesmo quando não está sendo presenteado.

Estimule a atividades físicas, a fim de que a  televisão e o computador não sejam considerados atividades fundamentais na vida da criança.

Imponha limites, a criança precisa entender que nem tudo que ela quer,  poderá ter.

Construa uma relação de confiabilidade e amor com seus filhos, onde os valores reais sejam construídos e firmados, e a sua opinião seja mais forte que qualquer influência externa que ele possa receber.

Vivemos numa sociedade consumista, numa sociedade de desejos, e não de projetos existenciais. Ninguém planeja ter amigos, ninguém planeja ser mais tolerante, superar fobias, ter um grande amor”          Augusto Cury

Franciane

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