Meu Filho pisca muito! Parece um “tique”! O que fazer?

Por Dra. Luciana Peixoto Finamor

tique

Recentemente atendi uma mãe muito preocupada com o fato da filha de 7 anos ter começado a piscar muito os olhos e a torcer o nariz e a boca de forma muito frequente. Essa queixa e descrição é muito comum no nosso dia a dia, motivo de angústia e insegurança para muitas famílias. A minha resposta inicial é sempre assim: “fique tranquila, isso é muito comum nessa idade e logo logo vai passar!”

A descrição feita por esta mãe, visto que eu já conhecia seu histórico oftalmológico prévio normal,  levou-me a concluir que esta criança apresenta tiques, ou seja, movimentos involuntários, rápidos, repetitivos e estereotipados, que surgem de forma súbita, não apresentando um ritmo determinado. Lembrem-se são involuntários, a criança não tem controle sobre esses movimentos.

Os tiques envolvem geralmente músculos do rosto, ombros, braços e pescoço, produzindo movimentos como piscar os olhos, franzir a testa, sacudir a cabeça, contrair a boca e encolher os ombros. Estes costumam desaparecer durante o sono e durante a realização de atividades que exijam concentração. A escola e professoras, em geral, não notam nada fora do padrão de normalidade, justamente porque, nessas condições, o tique aparece pouco. O stress, a fadiga, a ansiedade e excitação levam ao aumento da sua intensidade.

Segundo a Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência, até 25% das crianças em idade escolar apresentam este tipo de transtorno, começando geralmente na infância, entre 7 e 9 anos e adolescência. Segundo alguns investigadores, os tiques são automatismos nervosos que ajudam a aliviar a tensão, desaparecendo frequentemente, de forma espontânea, ao fim de algum tempo, sem necessidade de tratamento. Eles são involuntários, mas podem ser suprimidos por um tempo…o que significa isso? O indivíduo pode até, transitoriamente, se controlar e evitar que ele apareça…mas isso gera um desconforto tão grande, que a única forma dele se sentir confortável é repetir o movimento. Eles podem aparecer em qualquer idade, mas são mais comuns na infância e adolescência e afeta principalmente os meninos. A causa não é totalmente esclarecida, mas acredita-se que o stress, ansiedade e a privação do sono, possam ter algum papel na ocorrência dos sintomas.

É sempre muito importante descartar causas orgânicas para o problema. Presença de olho seco, vícios de refração (miopia, hipermetropia e astigmatismo), inflamação da córnea, conjuntivites e alergias podem estar associadas. Muito raramente causas de cunho neurológico ou psiquiátricas estão envolvidas.

A grande questão é: qual será a atitude mais correta perante uma criança com um tique nervoso?

Em primeiro lugar, é fundamental ter consciência de que um tique não é algo que se controle facilmente e que só se consegue evitá-lo com esforço e tensão emocional. Em segundo lugar, é preciso entender, que muitas vezes estes comportamentos surgem na sequência de situações estressantes e que, por isso, tendem a desaparecer com o tempo; logo, o melhor mesmo é ignorá-los.

É fundamental tranquilizar a criança dizendo-lhe que em pouco tempo o tique irá desaparecer. Após ter passado esta mensagem, o adulto deve ter uma postura coerente, não recriminando nem fazendo observações negativas sempre que o tique surja. Repreender ou chamar a atenção pode diminuir a autoestima da criança e agravar o sintoma.

Embora a maior parte dos tiques desapareçam espontaneamente, existem casos, embora muito raros, em que eles se tornam crônicos, apresentando uma duração superior a um ano. Se a criança apresentar tiques motores persistentes, com duração maior que 1 ano, acompanhado também de um tique vocal, possivelmente estaremos falando da síndrome de Tourette. Este é o mais grave transtorno de tiques, estando geralmente associado a problemas de relacionamento, aprendizagem, atenção, concentração e comportamentos obsessivos e compulsivos. Nesses casos, podem ser necessários terapia psicológica e medicamentosa.  As atividades desportivas também podem ajudar, uma vez que causam diminuição do stress e da ansiedade. Lembrem-se, uma situação onde o tique possa ser considerado uma doença, ou patológico, é muito rara! Mas nunca faça auto diagnóstico antes de falar com o seu médico! 

Por mais que o tique do seu filho o preocupe e incomode, nunca comente o assunto com outras pessoas à frente dela. Ao não dar importância à questão, você estará contribuindo, quase decisivamente, para que rapidamente ele faça parte do passado e vire mais uma estorinha pra você contar ao seu filho quando ele crescer!

LUPEIXOTO