Dor de Cabeça? ATENÇÃO: Você pode ter algum problema de Visão!

Por Dra. Luciana Peixoto Finamor

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Dores oculares não são raras e sua natureza é variada. Mas já começo contando à vocês que, felizmente, a maioria dos casos de cefaléia em crianças e adultos não costuma estar relacionada à visão. Sim, não são tão frequentes, mas podem acontecer.

A cefaléia de origem visual se manifesta de maneira progressiva, piora ao longo do dia e atinge o seu ápice à tarde ou à noite. Uma das primeiras perguntas que fazemos quando existe a queixa de dor de cabeça é: “Você já acorda com dor de cabeça?”…se a resposta for sim, provavelmente o que você tem não é de causa visual. Quando a dor se localiza nos lados da cabeça, é muito raro que tenha relação com visão, mas sempre que nos depararmos com cefaléias periorbitárias, frontais ou atrás da cabeça, é necessário considerar a participação de fenômenos visuais, seja como predisponentes ou desencadeantes da dor.

Pessoas que desempenham atividades visuais de detalhes, prolongadas ou repetidas (leitura, escrita, bordado, costura, televisão, computador, vídeo-game e tantas outras) e que têm pequenos graus não corrigidos ou pequenos desvios, podem ter dor de cabeça.

Nossos olhos se situam nas órbitas, cavidades cranianas que abrigam não só estes órgãos, mas também os músculos que os dirigem para os lados, para cima e para baixo. Cada um dos olhos é movimentado por 6 músculos extra-oculares. O funcionamento sinérgico destes músculos mantém o paralelismo ocular, isto é, faz com que nossos olhos estejam sempre dirigidos para o mesmo objeto de mirada.

Anomalias dos músculos extra-oculares podem condicionar perda do paralelismo binocular. A esta perda chamamos estrabismo (“vesguice”). Assim, os olhos podem ser estrábicos convergentes (para dentro), divergentes (para fora), ou estar voltados para diferentes alturas (um para cima e outro para baixo), ou ainda combinações destes desvios.

O estrabismo pode ser manifesto ou latente. É manifesto quando o esforço muscular não consegue compensá-lo, e o desvio é evidente. É dito latente quando a manutenção do paralelismo ocular só é conseguida às custas de esforço muscular anormalmente intenso. O estrabismo latente é também chamado foria.

E porque estamos falando disso? Exceto quando dormimos, o esforço muscular necessário à compensação das forias é contínuo, exigindo muito dos músculos extra-oculares, que assim se cansam e podem entrar num processo de “fadiga” ou “exaustação” levando à quadros de dor ocular e cefaleia.

ASTENOPIA

Para efeitos de visão, é considerado “distante” tudo que se encontra fora do alcance dos nossos braços, e “próximo” aquilo que nossas mãos alcançam. Assim, quando assistimos TV, estamos olhando “para longe”. Quando lemos um livro que seguramos, estamos olhando “para perto”.

Dentro do olho há uma lente deformável – o cristalino. É essa deformação (desejável) do cristalino que nos possibilita ver com nitidez objetos a qualquer distância. Assim, quando dirigimos nosso olhar à distância (por exemplo, uma placa à beira da estrada), o cristalino assume formato “magro”. Quando, ao contrário, dirigimos nosso olhar a algum objeto próximo, a lente assume formato “gordo”. Sem esta adaptação, veríamos embaçados os objetos que nos cercam. A esta plasticidade cristaliniana damos o nome de acomodação.

O que realiza a acomodação? Em torno do cristalino existe o músculo ciliar (intra-ocular), um músculo em forma de anel que, quando se contrai, obriga o cristalino a assumir formato “gordo”, focalizando nossa visão para perto. Quando o músculo ciliar relaxa, o cristalino assume o formato “magro”, que permite focalização remota. Quanto mais próximo do rosto estiver o objeto que observamos, mais intensa a acomodação, isto é, a contração do músculo ciliar e a deformação do cristalino.

O esforço do músculo ciliar se compara ao esforço de qualquer outro músculo do corpo, ou seja, se for excessivamente exigido, ele se cansa e “dói”. Astenopia é o nome que damos a este cansaço ocular dolorido. Leituras prolongadas, ou exageradamente próximas ao rosto, exigem grande esforço visual, desencadeando o que chamamos de astenopia acomodativa.

Independentemente da causa, ocorrendo astenopia, esta dor muscular pode se irradiar para outras regiões da cabeça, assim interpretada como cefaléia. Por isso, sempre que possível, devemos manter uma distância de leitura não tão curta e orientar isso aos nossos pequenos também.

AMETROPIAS OU VÍCIOS DE REFRAÇÃO

Ametropia ou vícios de refração, são anomalias oculares que prejudicam a visão. São 4 as principais ametropias: miopia, hipermetropia, astigmatismo e presbiopia. Miopia em geral não está relacionado à dor de cabeça.

Hipermetropia é uma anomalia ocular tal que, mesmo quando o olho fixa à distância, o músculo ciliar é contraído (e, claro, ainda mais quando usamos os olhos para perto). Corrige-se hipermetropia com lentes (óculos ou lentes de contato). Quando não corrigida, a persistência do esforço muscular pode resultar astenopia, não só no olhar próximo, mas até mesmo à distância.

Após os 40 anos de idade, a acomodação diminui, dificultando a focalização de objetos próximos (como na leitura). A este fenômeno chamamos presbiopia. Até que se corrija a presbiopia (também com lentes), os esforços visuais próximos desencadeiam astenopia.

No astigmatismo as coisas se processam de maneira mais complexa. Nesta ametropia, o olho é de tal maneira deformado, que condiciona formação de imagem dupla de um mesmo objeto no olho astigmata. Nem mesmo a acomodação (que tende a corrigir a hipermetropia) consegue neutralizar o incômodo. Pequenos astigmatismos não perturbam signficativamente a visão, mas os moderados e elevados a embaçam.

Embora os astigmatismos pequenos não prejudiquem a visão, são exatamente estes os que mais afetam o conforto, especialmente quando verticais ou (ainda piores) oblíquos. Ocorre que, na tentativa de compensar o pequeno astigmatismo, o músculo ciliar se contrai, buscando focalizar a imagem, mas – sendo esta dupla – ele se confunde, “não sabendo” qual dos 2 focos buscar. No esforço frustrado de se contrair da maneira que conviria à correção, a alternância na procura dos focos exige do músculo uma tarefa que lhe é impossível, esforçando-o demasiadamente. Esta acomodação assimétrica, contínua ou repetitiva, produz fenômenos que culminam em astenopia e dor de cabeça.

Na maioria destes casos, identificado o problema, a correção é simples. Nas forias, exercícios oculares orientados por ortoptistas dão bons resultados. É como se fosse uma “fisioterapia” para o olho. Ametropias se corrigem com óculos. Em alguns casos podem ser consideradas lentes de contato ou cirurgia.

Embora as cefaléias possam ter muitas outras causas, anomalias refrativas são as mais simples de se excluir, e portanto a primeira linha de investigação. Basta exame oftalmológico criterioso. Na maioria dos casos, para termos certeza do resultado e correção adequada, necessitamos de exames com a pupila dilatada.

MELHORE O SEU CONFORTO VISUAL:

Atividades visuais próximas (leitura, artesanato, tricô, crochê, bordado, costura): Habitue-se a fazê-los à distância de 30 centímetros ou mais do rosto, com boa iluminação vinda da esquerda (para destros), ou, de preferência, de ambos os lados. Se você tem óculos de grau, use-os!

Iluminação ambiente: Atenção para a iluminação do local. Luz natural é sempre melhor. Excesso de iluminação também pode causar desconforto. Duas lâmpadas de 40W consomem menos, produzem menos sombras e dão melhor resultado do que uma de 100W.

Televisão: Sente-se à distância de 3 metros ou mais do televisor. A imagem deve ser regulada com pouco contraste, brilho e cor. A sala não deve estar escura, mas com alguma iluminação.

Computador e vídeo-game: Mantenha o monitor o mais distante do rosto que lhe dê conforto. Use o mínimo possível de contraste, brilho e cor. Por regra, usuários de computador piscam pouco; o resultado é a evaporação da lágrima e olhos vermelhos, irritados. Portanto, pisque muito!

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