Alergia Ocular e Esmaltes

Por Dra. Luciana Peixoto Finamor

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Hoje iniciaremos um assunto muito em alta no nosso dia a dia: Cosméticos e crianças? Pode? Há riscos? Os cosméticos, em geral, estão fortemente ligados à nossa vida, pois são importantes para a manutenção da higiene, embelezamento e bem estar. Eles fazem parte da nossa rotina e podem parecer inofensivos; porém é importante destacar que o uso contínuo desses produtos pode levar, ao longo do tempo, a um acúmulo de substâncias tóxicas no organismo.

Um dos grandes problemas associados ao uso de diversos cosméticos, é a alergia ocular…em adultos e crianças. A alergia ocular ocorre quando os olhos entram em contato com substâncias que são chamadas alérgenas ou alergênicas. No olho, o principal sintoma é o prurido (coceira). Normalmente, essa coceira ocular é acompanhada de edema (inchaço palpebral), hiperemia (olhos vermelhos) e lacrimejamento. Em geral, a alergia ocular é bilateral e simultânea, sendo que um olho pode ser mais afetado que o outro.

A literatura científica mundial já tem catalogada mais de 170 substâncias alergênicas, que podem ser encontradas nos alimentos e cosméticos. As reações alérgicas podem também ser desencadeadas por ácaros, poeira, pêlos e pólen. A alergia ocular ocorre principalmente nas pessoas que sofrem de alergia em outras partes do corpo como asma, rinite e alergia de pele, porém pode ocorrer isoladamente.

A palavra “hipoalergênico” é utilizada, em termos científicos, para definir produtos que provocam baixa incidência de alergias, isto é, com baixo potencial de sensibilização. Cosméticos hipoalergênicos são aqueles que raramente produzem reações alérgicas ou irritantes. Evidentemente, devido ao largo espectro de sensibilização humana, nenhum produto é totalmente não alergênico! Isso significa que, alguns indivíduos, podem ter reações alérgicas mesmo com produtos hipoalergênicos.

Nos últimos anos, tenho notado um grande número de casos de alergia ocular relacionado ao uso de esmaltes e outros cosméticos. Fazer as unhas regularmente é um hábito entre as brasileiras. O Brasil destaca-se, mundialmente, como o segundo maior consumidor de esmaltes, atrás apenas dos Estados Unidos. Além das mulheres, mais homens e crianças também passaram a utilizar cosméticos na sua rotina. É possível, que a grande variedade de produtos esteja também aumentando o “contato” com diferentes ativos (substâncias) nas formulações, aumentando a chance de sensibilização.

A vaidade das crianças, porém, exige cuidado redobrado. De acordo com o guia de cosméticos infantis da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os esmaltes permitidos para crianças são aqueles à base de água e que saem sem necessidade do uso de acetona ou removedor. O documento ainda alerta: “Por não possuírem solvente, o cheiro dos esmaltes infantis é bem diferente do presente nos esmaltes para adultos”. Segundo a ANVISA os esmaltes de uso geral só estariam liberados para uso em crianças maiores de 12 anos.

E como explicar isso às nossas pequenas princesas? Sim, para nós que somos mães de meninas dá muito trabalho! Primeiro, recomendaria que você tentasse usar apenas os esmaltes à base de água (concordo, muito difícil né?). O que eu faço em casa é colocar algumas “regrinhas”…eu uso o seguinte discurso “Hoje podemos usar porque é um dia especial”! Assim, eventualmente, libero para usarem os esmaltes da mamãe, desde que sejam no mínimo “3Free”. Hoje, já existem os esmaltes 5Freee 7Free. Falaremos sobre eles depois.

Os primeiros sintomas da alergia ocular ao esmalte são coceira nas pálpebras ou nos dedos, seguida de vermelhidão. Pode ser facilmente confundida com um breve ressecamento da pele. O quadro pode piorar, cursando com um edema importante das pálpebras superior e inferior, quemose (aspecto de “bolha na conjuntiva, a camada mais superficial que reveste o olho) e lacrimejamento abundante.

As reações alérgicas dependem de um processo de sensibilização e por isso não aparecem na primeira vez que determinado produto é utilizado, mas sim após algum tempo de uso. Fato que explica uma dúvida muito comum no consultório: ”Mas eu sempre usei este produto, como só agora surgiu uma reação alérgica?’’. É exatamente isso, você pode ter sido usuário de um produto por muito tempo e de repente não consegue mais usar, ficou “sensibilizado”!

Este tipo de reação alérgica por sensibilização, vem acompanhada normalmente de eczema na pele e prurido (coceira intensa). Logo surgem áreas vermelhas (eritema) e formação de pequenas bolhas de água (vesículas) que podem se romper eliminado um líquido, que ao secar pode provocar o surgimento de crostas e descamação do local afetado.

Em relação aos esmaltes, existem 3 componentes muito associados às alergias, que são:

  • Formaldeído(formol) – Aumenta a aderência, o brilho e a durabilidade.
  • Tolueno– derivado do benzeno é o solvente tradicional do esmalte usado para secagem mais rápida.
  • Dibutilftalato(DBF) – aumenta o brilho e flexibilidade.

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O formaldeído, ou formol, é regulado pela ANVISA, desde 2012, para o uso em cosméticos, mas ainda podem existir produtos com ele no mercado, pois o prazo de adequação dos fabricantes é de dois anos. A concentração permitida é de apenas 0,2% em produtos de beleza.Todas essas substâncias podem causar alergias e irritações nos locais da pele onde o esmalte entra em contato, como pescoço, face e olhos. Os motivos pelos quais essas substâncias continuam sendo usadas, na maioria dos esmaltes, é que elas ajudam a manter brilho, consistência, fixação e durabilidade.

Formaldeído e Tolueno são as substâncias que mais causam alergias. Entretanto, qualquer outro componente da fórmula pode provocá-la, por exemplo, um corante. A cânfora e sulfonamida são outras substâncias presentes em algumas fórmulas e também podem causar alergia.

Por tudo isso, hoje, as palavras hipoalergênicos e “3Free”, estão cada vez mais em evidência no mundo dos esmaltes. A boa notícia é que diversas marcas nacionais já possuem linhas de esmaltes hipoalergênicos (com grande variedade de cores) e com fórmula livre de tolueno, formaldeído e DBP. São os esmaltes “3Free”. Os esmaltes “5Free” são livres das 3 substâncias acima e ainda livres de cânfora e sulfonamida. E os esmaltes “7Free” são os mais hipoalergênicos de todos, pois não apresentam na sua composição  DBP, tolueno, formaldeído, resina de formaldeído, cânfora, conservantes e petrolato. Os esmaltes “3Free” e “5Free” já podem ser encontrados na redes de drogarias convencionais.

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Esmalte “5Free”: Livre de livre de tolueno, formaldeído, DBP, cânfora e sulfonamida

Os esmaltes “7Free”, em geral só são encontrados em lojas especializadas em produtos para indivíduos alérgicos.

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Esmalte “7Free”: são os mais hipoalergênicos de todos, pois não apresentam na sua composição tolueno, formaldeído, DBP, cânfora , sulfonamida, conservantes e petrolato.

E como descobrir se o esmalte é “3Free/5Free/7Free” se essa informação não vier destacado na embalagem? Eu procurei em algumas embalagens e é mesmo difícil…você tem que ler os rótulos minúsculos ou pesquisar nos sites do fabricante, que em geral disponibilizam essa informação. Não tem outro jeito! Poucas marcas destacam a informação!

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Na dúvida, fique atenta ao rótulo!

 A maioria da marcas importadas é “3Free”, visto que a legislação internacional não permite o uso desses componentes nos esmaltes. O mercado nacional de esmaltes já está se adequando, implantando ou ampliando linhas de esmaltes hipoalergênicos. Acredito que em pouco tempo a Anvisa tenha tolerância zero a esse trio de vilões na fabricação de esmaltes. Em relação aos fabricantes, marcas como Risqué e Impala têm coleções “3Free”, mas na embalagem vem escrito “hipoalergênico”. Entende-se que o esmalte hipoalergênico seja sempre “3Free”.

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Risqué: Embalagem com descrição “Hipoalergênico”.

 A Colorama tem a maior parte de sua linha “3 Free”, e atualmente indica isso de forma clara nas embalagens. Ludurana, Derma Nail, Argento, O Boticário e B.u são “3Free”, mas nem todas usam essa nomenclatura. Le Lis Blanc Beauté  lançou uma fórmula que promete secagem rápida, duração e alta cobertura. Os produtos são “3Free” e ainda sem cânfora. A Speciallitá e L Apogée tem atualmente a maioria de sua linha “3Free”, e indicam isso de forma visível nas novas embalagens.

Esmaltes hipoalergênicos costumam ser eficazes, evitando na maioria dos casos as dermatites e alergias oculares ligadas a esses produtos. É importante ficar atenta aos rótulos – até mesmo nas versões antialérgicas – para evitar surpresas, especialmente em caso de uso nas pequenas. Em breve, falaremos sobre as formas de controle e tratamento de outros tipos de alergias oculares.

 A autora declara não ter interesse comercial ou publicitário nos produtos citados no texto. 

Dra. Luciana Peixoto Finamor

Email: dralupeixoto@gmail.com

Instagram: @dralucianafinamor

Saiba mais: a legislação específica de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes estabelece ainda as Listas de Substâncias, dentre as quais, para os esmaltes, destacam-se: Lista de Substâncias de Ação Conservante (RDC 29/12), Lista de Corantes (RDC 44/12), Lista de Substâncias de Uso Restrito (RDC 03/12) e Lista de Substâncias de Uso Proibido (RDC 48/06). Consulte o site www.anvisa.gov.br

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