As mães e suas culpas

Por Dra. Franciane Nascimento

Esse mês vamos focar nas mamães, e nada melhor do que tratarmos de um assunto que aflige a maioria delas, a tão perseguidora CULPA.

Durante 10 anos de consultório, pude analisar que a culpa da mãe já nasce com o filho e as com as primeiras decisões a respeito dele, parto normal ou cesárea? Será que fiz a escolha correta? Será que isso pode ter afetado psicologicamente o bebê? Será que ele vai carregar alguma sequela disso?

Quando chega à época de retorno ao trabalho depois tantos meses juntos, praticamente sendo um só com o filho, a decisão em voltar, se torna uma das recordistas em termos de culpa materna, depois disso, vem à escolha da escola, as atividades das quais vai inscrever seu objeto de amor.

Natação? Ginástica Olímpica? Balé? Inglês? Devo comprar aquele brinquedo?

Daí para frente à pergunta interna, será se…? Passa a corroer as tão preocupadas mamães.

Existe uma idéia que ser mãe, é ser super heroína e maioria de nós ao pensarmos, temos esse conceito construído internamente.

Quando pensamos na palavra mãe, logo vem algo associado à perfeição, amor incondicional, disposição, entre outras. Mas nunca fazemos associação com cansaço, desgaste, excesso de responsabilidade, e quando uma mãe coloca algum sentimento desses, logo ela já não é reconhecida como uma boa mãe, por ela mesma e infelizmente também por  alguns  ao seu redor, algumas pessoas acreditam que quando nasce uma mãe, com ela nasce também “super poderes”.

Uma grande fonte de culpa é a fantasia onipotente existente nas mulheres, a idéia que é possível dar conta de tudo, culpada de infinitas formas, por não ser a  mãe perfeita dos mitos e de seu próprio imaginário, e do próprio referencial de mãe, as mães acabam adoecendo com sua expectativa de perfeição, escreveu Karen Kleiman, fundadora e diretora executiva do Centro de Estresse Pós Parto dos EUA.

A mulher sofre toda essa pressão e, ao mesmo tempo, muitas vezes não tem espaço para falar dos problemas, em geral não podem  falar que estão cansada, que está difícil, que algumas vezes, até que se arrependeram de ter o bebê, os sentimentos ruins são soterrados psiquicamente pela responsabilidade e cobrança interna.

No Brasil segundo uma pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, que entrevistou 28.896 mulheres, mais de uma em cada quatro brasileiras apresenta sintomas de depressão pós-parto.

Como proceder então diante de tudo isso?

  • A culpa apesar de tudo, tem uma função benéfica no ser humano, ela é expressão da maturidade psíquica emociona, segundo a psicanalista Belinda Maldebaum, coordenadora do laboratório de estudos de família do IPUSP, ela é sinal que somos responsáveis por aquilo que fazemos com os outros, ou seja, a culpa faz parte de quem zela por seus filhos, uma atitude saudável então, é usar esse sentimento como instrumento diário de aperfeiçoamento da vida em família.
  • A culpa sempre virá como um instinto, desde o nascimento, e durante o desenvolvimento do filho, porem pensar e avaliar o porquê daquele sentimento, vai sempre fazer toda diferença.
  • Sempre tente avaliar se de fato você fez algo de errado que deveria se arrepender, as situações quando bem analisadas tendem a ter outras vertentes.
  • Tenha sempre uma amiga, ou grupo de amigas que estejam vivenciando as mesmas fases com os filhos que você possa se abrir e partilhar os problemas e as angustias.
  • Uma das grandes cobranças das mães está relacionada a não passarem tempo suficiente com os filhos, se você não pode passar todo seu dia com eles, por motivos diversos, eleja um tempo, ou hora com qualidade, no qual você possa focar toda sua atenção e energia a ele.
  • Aprenda a dividir as dores com seu marido, muitas vezes os homens têm soluções práticas para problemas dos quais as mulheres insistem em “mastigar”, lembre-se que ele também é responsável pelos filhos e que ele pode ser seu maior ajudador.
  • Lembre-se que o mais importante é ser uma mãe feliz, seus filhos muitas vezes vão aprender a conviver com sua ausência devido ao trabalho ou outras atividades, mas com certeza vão perceber inconscientemente o quanto você é infeliz e preocupada diante da vida e deles.
  • Confie em seus valores, recebo no consultório muitas mães que não se deixam guiar pelos seus valores, e que buscam uma receita perfeita para criação dos filhos. Winnicott foi um dos maiores psicanalistas que se dedicaram a estudar as crianças e suas relações com as mães. Ele descreveu que para um bom desenvolvimento do bebê, esse precisa de uma mãe, que ele intitulou a mãe suficientemente boa, essa mãe aceita conscientemente e inconscientemente, as expressões do bebê, a fome, o incomodo, o prazer, ela não impõe o que pensa ser o certo, mas permite que o filho tenha experiências que ele seja sempre sujeito, em termos gerais, para ele, a mãe tem uma compreensão intelectual de sua função de tarefa, a mãe está preparada para a mesma em sua essência, pela orientação biológica em relação ao seu próprio filho, para que essa seja essa mãe suficientemente boa, implica muito mais na sua devoção do que na sua compreensão, ou seja, o quanto ela percebe o que o seu bebê precisa e acolhe isso, é exatamente quando ela confia em seu próprio julgamento que está na sua melhor forma psíquica, confie na sua intuição.
  • Aceite suas limitações, busque aprender, porem não descaracterizando seus saberes, você também está em processo de aprendizagem.
  • Se a maternidade passou a ser um conflito muito grande para você, procure um psicólogo, não há nada de mal nisso, muitas mulheres tiveram problemas com suas próprias mães e isso sempre é um gatilho para conflitos internos quando se tornam mãe, outras tiveram mães idealizadas, outras não tiveram mãe, o pensar e o elaborar isso, sempre é algo que traz saúde psíquica e aceitação e dissolução de conflitos.
  • Para finalizar, lembre-se você não é perfeita e nem precisa ser, seu amor vai ser o maior alimento que seu filho precisa, o ame

 “A vida é uma aprendizagem diária

Afasto-me do caos e sigo um simples pensamento

“Quanto mais simples melhor”

José Saramago

 

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